domingo, 28 de agosto de 2011

"Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como “este foi difícil”
“prateou no ar dando rabanadas”
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva."
ADÉLIA PRADO 

sexta-feira, 26 de agosto de 2011




O inalcançável é sempre azul.
Clarice Lispector
Tu, pediste a rosa, Dei-te.
Uma vez em meus braços, pediste-os, eu dei.
Com, doçura pediste, fidelidade, e dei.
Quando falei vantagens, dos sonhos meus,
tu pediste, e os dei.
Para o mundo andar, minhas pernas, as dei.
O tempo fez uma volta, o arco reluziu, te dei.
Meu tronco, o abraçaste, e a ti o dei.
O horizonte infinito, tal qual a desejo, e o dei.
Minha cabeça, junto os pensamentos, a ti dei.
Nada mais restando, para te dar, devolveste-os.
E, novamente, não pediste a rosa, mas a ti dei.
Uma vez pediste-me, por inteiro, e me dei.
Eis o ciclo do amor: esse se dar, receber-se de volta,
e, de novo, dar-se.

José do Vale Pinheiro Feitosa

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

A biologia de ser difícil
Depressão mascarada

As pessoas normais exageram sua competência e sobre até que ponto são bem amadas.
As deprimidas, não.
As normais relembram o passado com um brilho róseo.
As deprimidas são mais imparciais ao recordar seus sucessos e fracassos.
As normais descrevem-se como basicamente positivas.
As deprimidas descrevem tanto os próprios defeitos quanto as qualidades.
As normais assumem o crédito por desfechos bem sucedidos e tendem a negar a responsabilidade pelos fracassos.
As deprimidas se responsabilizam tanto pelos sucessos como pelos fracassos.
As normais exageram o controle que têm sobre o que se passa à sua volta.
As deprimidas são menos vulneráveis à ilusão de controle.
As normais acreditam, até um grau irrealista, que o futuro lhes reserva uma infinidade de coisas boas e poucas ruins.
As deprimidas são mais realistas em suas percepções do futuro.
Em todos os pontos em que os normais exibem acentuada auto-estima, 
ilusões de controle e visões irrealistas do futuro,
Os deprimidos não mostram a mesma tendência.
“Mais triste, porém mais sábio” parece aplicar-se à depressão.

Síndromes Silenciosas
John Ratey, Catherine Johnson

O Último Discurso

de “O Grande Ditador”;

Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar – se possível – judeus, o gentio... negros... brancos.
Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo – não para o seu infortúnio. Por que havemos de odiar e desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover a todas as nossas necessidades.
O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos.  A cobiça envenenou a alma dos homens... levantou no mundo as muralhas do ódio... e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.
A aviação e o rádio aproximaram-nos muito mais. A própria natureza dessas coisas é um apelo eloqüente à bondade do homem... um apelo à fraternidade universal... à união de todos nós. Neste mesmo instante a minha voz chega a milhares de pessoas pelo mundo afora... milhões de desesperados, homens, mulheres, criancinhas... vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes. Aos que me podem ouvir eu digo: “Não desespereis! A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia... da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano. Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há de retornar ao povo. E assim, enquanto morrem homens, a liberdade nunca perecerá.
Soldados! Não vos entregueis a esses brutais... que vos desprezam... que vos escravizam... que arregimentam as vossas vidas... que ditam os vossos atos, as vossas idéias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como gado humano e que vos utilizam como bucha de canhão! Não sois máquina! Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar... os que não se fazem amar e os inumanos!
Soldados! Não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade! No décimo sétimo capítulo de São Lucas está escrito que o Reino de Deus está dentro do homem – não de um só homem ou grupo de homens, ms dos homens todos! Está em vós! Vós, o povo, tendes o poder – o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela... de faze-la uma aventura maravilhosa. Portanto – em nome da democracia – usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo... um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice.
É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas, só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores liberam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à ventura de todos nós. Soldados, em nome da democracia, unamo-nos!
Hannah, estás me ouvindo? Onde te encontrares, levanta os olhos! Vês, Hannah? O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos saindo da treva para a luz! Vamos entrando num mundo novo – um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergue os olhos, Hannah! A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Ergue os olhos, Hannah! Ergue os olhos!

Chaplin

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

A insustentável leveza do ser

 “O eterno retorno é uma idéia misteriosa e, com ela, Nietzche pôs muitos filósofos em dificuldade: pensar que um dia tudo vai se repetir como foi vivido e que tal repetição ainda vai se repetir indefinidamente! O que significa esse mito insensato?
O mito do eterno retorno afirma, por negação, que a vida que desaparece de uma vez por todas, que não volta mais, é semelhante a uma sombra, não tem peso, está morta por antecipação, e por mais atroz, mais bela, mais esplêndida que seja, esta atrocidade, essa beleza, esse esplendor não tem o menor sentido. Essa vida é tão importante quanto uma guerra entre dois reinos africanos do século XIV, que não alterou em nada a face do mundo, embora trezentos mil negros tenham encontrado nela a morte depois de suplícios indescritíveis.
Será que esta guerra entre dois reinos africanos do século XIV se modifica pelo fato de se repetir um número incalculável de vezes no eterno retorno?
Sim: ela se tornará um bloco que se forma e perdura, e sua brutalidade não terá remissão.
Se a Revolução Francesa devesse se repetir eternamente, a historiografia francesa se mostraria menos orgulhosa de Rosbespierre. Mas como se trata de algo que não voltará, os anos sangrentos não passam de palavras, teorias, discussões, são mais leves como uma pluma, já não provocam medo. Existe uma diferença infinita entre um Rosbespierre que apareceu uma só vez na história e um Rosbespierre que voltaria eternamente para cortar a cabeça dos franceses.
Digamos, portanto, que a idéia do eterno retorno designa uma perspectiva em que as coisas não parecem ser como nós as conhecemos: elas aparecem para nós sem a circunstância de sua fugacidade. Com efeito, essa circunstância atenuante nos impede de pronunciar qualquer veredicto. Como condenar o que é efêmero? As nuvens alaranjadas do crepúsculo douram todas as coisas com o encanto da nostalgia; até mesmo a guilhotina.
Não faz muito tempo, surpreendi-me experimentando uma sensação incrível: folheando um livro sobre Hitler, fiquei emocionado com algumas fotos dele; lembravam-me o tempo da minha infância; eu a vivi durante a guerra; diversos membros da  minha família foram mortos nos campos de concentração nazistas; mas o que era a sua morte diante desta fotografia de Hitler que me lembrava um tempo passado da minha vida, um tempo que não voltaria mais?
Essa reconciliação com o Hitler trai a profunda perversão moral inerente a um mundo fundado essencialmente sobre a inexistência do retorno, pois nesse mundo tudo é perdoado por antecipação e tudo é, portanto, cinicamente permitido.

Se cada segundo de nossa vida deve se repetir um número infinito de vezes, estamos pregados na eternidade como Cristo na cruz. Essa idéia é atroz. No mundo do eterno retorno, cada gesto carrega o peso de uma responsabilidade insustentável. É isso que levava Nietzsche a dizer que a idéia do eterno retorno é o mais pesado dos fardos.
Mas será mesmo atroz o peso e bela a leveza?
O mais pesado dos fardos nos esmaga, verga-nos, comprime-nos contra o chão. Na poesia amorosa de todos os séculos, porém, a mulher deseja receber o fardo pesado do corpo masculino. O mais pesado dos fardos é, portanto, ao mesmo tempo a imagem da realização vital mais intensa. Quanto mais pesado é o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais real e verdadeira ela é.
Em compensação, a ausência total de fardo leva o ser humano a se tornar mais leve do que o ar, leva-o a voar, a se distanciar da terra, do ser terrestre, a se tornar semi-real, e leva seus movimentos a ser tão livres como insignificantes.
O que escolher, então? O peso ou a leveza?
Foi a pergunta que Parmênedes fez a si mesmo no século VI antes de Cristo. Segundo ele, o universo está dividido em pares de contrários: a luz / a escuridão; o grosso / o fino; o quente / o frio; o ser / o não ser. Ele considerava que um dos pólos da contradição é positivo (o claro, o quente, o fino, o ser), o outro, negativo. Essa divisão em pólos positivo e negativo pode nos parecer de uma facilidade pueril. Exceto em um dos casos: o que é positivo, o peso ou a leveza?
Parmênedes respondia: o leve é positivo, o pesado é negativo. Teria ou não razão? A questão é essa. Só uma coisa é certa. A contradição pesado / leve é a mais misteriosa e a mais ambígua de todas as contradições.

Nunca se pode saber o que se deve querer, pois só se tem uma vida e não se pode nem compará-la com as vidas anteriores nem corrigi-la nas vidas posteriores.
Não existe meio de verificar qual é a decisão acertada, pois não existe termo de comparação. Tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que pode valer a vida, se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida? É isso que leva a vida a parecer sempre um esboço. No entanto, mesmo ‘esboço’ não é a palavra certa, pois um esboço é sempre um projeto de alguma coisa, a preparação de um quadro, ao passo que o esboço que é a nossa vida, não é o esboço de nada, é um esboço sem quadro.”

 Milan Kundera


É tudo noturno e confuso.
                                        
Fernando Pessoa

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

A solidão

A solidão, antes de qualquer coisa, é um ideal. Isto já aparecia em Robson Crusoé, um dos primeiros romances da modernidade. Todo mundo idealizava ser aquele cara sozinho, misterioso, que vivia em uma ilha deserta. Dessa forma, a solidão foi-se constituindo em nosso repertório como algo a ser buscado. Alguém sozinho é altamente desejado e invejado.
É bom ser misterioso – sobretudo se a gente não tem mistério nenhum. O mistério atrai porque é um lugar inacessível, subjetivo. Acontece que a verdade da subjetividade moderna é justamente contrária a esse ideal de solidão, uma vez que nenhum sujeito pode ser definido por ele mesmo. Somos todos definidos pelos outros. A aurora da subjetividade moderna em questão aconteceu a partir do século XV mais ou menos, quando os tratados de boas maneiras deixaram de ser simplesmente listas de regras para bem viver na corte para se tornarem listas do que podemos fazer de melhor para ganhar a consideração do vizinho. Pronto. Passamos a ser fundamentalmente constituídos pelo olhar dos outros. Queremos ser reconhecidos, aprovados, aceitos, desejados e invejados pelos outros. Portanto, certamente não somos sujeitos solitários. O raciocínio é mais ou menos assim: se eu for solitário, me parecerei com Clint Eastwood e, portanto, serei invejado por outros homens e amado por todas as mulheres, que nunca me terão. Por isso, elas também nunca poderão descobrir que, na verdade, não sou essa grande coisa que elas imaginam. No fundo é um paradoxo, me interessa ser solitário porque isso me torna um sucesso social. O paradoxo do ideal de solidão é aquele em que eu estou disposto a me privar dos prazeres da companhia sob a condição de ter a certeza de estar no centro das atenções de todos.
A solidão pode deixar de ser um ideal e passar a ser um problema. No momento em que o sujeito aceita a idéia de que ele é definido pelo contexto social, pelas trocas sociais, sobretudo pelo olhar dos outros, acaba tendo a tendência de perceber quanto esse sistema é falso. Eu posso ter o maior sucesso, sou amado e reconhecido, desejado, invejado, mas no fundo ninguém sabe o filho da mãe que eu sou, que eu sou uma farsa, um impostor.
Que não mereço tudo isso. Então, posso presumir inclusive, que o mesmo acontece com os outros. Ou seja, quando eu vejo pessoas que me apreciam, retribuo. Mas ninguém consegue tocar meu âmago, e vice-versa. São os chamados relacionamentos de superfície. No fim, o sujeito moderno acaba sendo nostálgico de uma essência que de fato ele não tem. Uma metáfora para explicar essa subjetividade contemporânea é a cebola. Se você a descasca, há uma série de camadas, mas não há caroço. Somos uma cebola. O que não deixa de produzir uma grande nostalgia de um tipo de experiência subjetiva em que, se tivéssemos um caroço, poderíamos ter a ambição de saber quem somos e de saber quem os outros são. A nostalgia da essência é uma coisa que implica a sensação de superficialidade dessa extrema massa de contatos sociais que nos constituem e, portanto, uma sensação constante de solidão mesmo quando não estamos sozinhos.
Ninguém consegue tocar meu íntimo, nem minha mulher, nem meus filhos, nem ninguém. Isso é uma dimensão da experiência subjetiva moderna que acho muito difícil eliminar justamente pelas falsas trocas sociais. A idéia de uma verdade subjetiva que estaria sendo, de alguma forma, ocultada pelas trocas sociais está diretamente ligada à condição de nossa sensação de unicidade, uma doença gravíssima. É a idéia de que somos únicos no Universo. Ela nos predispõe a pensarmos que devemos ter uma espécie de âmago, de verdade subjetiva, que não se confunde com esse comércio social banal em que afinal todo mundo diz as mesmas coisas e faz de conta que gosta das mesmas coisas.
Quem se queixa que é sozinho, em geral, também reclama da falsidade das relações, afinal, ninguém o reconhece pelo que verdadeiramente ele é.
Suponho que aquele que não se sente sozinho é quem tenha pelo menos um amigo e um amor. É o que quebra a solidão. Só que a amizade, até mais que o amor, é um negócio que dá trabalho. E, em geral, as pessoas que se sentem sozinhas são avaras de si mesmas. Não se consegue uma amizade sem generosidade. Ela custa caro.
Por exemplo: você diz que está sozinho e me liga para jantar, quando eu começo a falar de mim, você diz que precisa voltar pra casa porque é seu costume acordar cedo para correr.
Tudo bem, eu penso. Então vá correr sozinho. Em geral quem se queixa de solidão é avaro de si, do seu tempo, do seu sono.
Não estou falando de paixões cinematográficas, até porque concordo, isso pode ser um golpe de sorte ou não acontecer nunca. Mas a gente tem de ter a capacidade de transformar os encontros em amores, com disposição para isso. Amar e estar na posição de unicidade não dá muito certo.
Isso tem muito a ver com o triunfo de nossa moral dominante, uma moral higienista, baseada na máxima: “preservar para durar mais”. Não posso fazer nada que comprometa a duração da minha vida. Portanto, organizo minha vida racionalmente a partir desse ideal. Por exemplo: Tenho que levantar às 7 da manhã, mesmo se eu estiver na cama pela primeira vez com alguém por quem eu possa me apaixonar. Então, não tem jeito, vai ficar sozinho mesmo.
É quando o outro ocupa meu tempo de uma forma irracional, me cansa, me contamina, suja meus lençóis, vai saber se tem alguma doença que me transmita com a saliva. No fundo, o ideal higienista é de solidão. Claro que não estou falando de deixar de usar a camisinha; quando você se coloca nessa perspectiva higienista já não é a aids que o contamina – é o outro. O parceiro, a companhia, o amigo, o amor em potencial se transformam em um perigoso vírus que contamina suas coisas, sua casa, sua vida.

Contardo Calligaris


Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás,
é o gosto de morte na boca dos
que continuam...
Pablo Neruda
"Ensinemos a perdoar, porém ensinemos também a não ofender. Seria mais eficiente. Ensinemos com o exemplo, não ofendendo. Admitamos que da primeira vez, ofende-se por ignorância; contudo, acreditemos que da segunda, costuma ser por vileza. Não se corrige o mal com a complacência ou com a cumplicidade; é nocivo como os venenos. E devem opor-se a ele antídotos eficazes: a reprovação e o desprezo."
José Ingenieros - O Homem Medíocre

Na Floresta do Alheamento
Sei que despertei e que ainda durmo. O meu corpo antigo, moído de eu viver diz-me que é muito cedo ainda... Sinto-me febril de longe. Peso-me, não sei por quê...
Num torpor lúcido, pesadamente incorpóreo, estagno, entre o sono e a vigília, num sonho que é uma sombra de sonhar. Minha atenção bóia entre dois mundos e vê cegamente a profundeza de um mar e a profundeza de um céu; e estas profundezas interpenetram-se, misturam-se, e eu não sei onde estou nem o que sonho.
Um vento de sombras sopra cinzas de propósitos mortos sobre o que eu sou de desperto. Cai de um firmamento desconhecido um orvalho morno de tédio. Uma grande angústia inerte manuseia-me a alma por dentro e, incerta, altera-me, como a brisa aos perfis das copas.
Na alcova mórbida e morna a antemanhã de lá fora é apenas um hálito de penumbra. Sou todo confusão quieta... Para que há-de um dia raiar?... Custa-me o saber que ele raiará, como se fosse um esforço meu que houvesse de o fazer aparecer.
Com uma lentidão confusa acalmo. Entorpeço-me. Bóio no ar, entre velar e dormir, e uma outra espécie de realidade surge, e eu em meio dela, não sei de que onde que não é este...
Surge mas não apaga esta, esta da alcova tépida, essa de uma floresta estranha. Coexistem na minha atenção algemada as duas realidades, como dois fumos que se misturam.
Que nítida de outra e de ela essa trêmula paisagem transparente! ...
E quem é esta mulher que comigo veste de observada essa floresta alheia? Para que é que tenho um momento de mo perguntar?... Eu nem sei querê-lo saber...
A alcova vaga é um vidro escuro através do qual, consciente dele, vejo essa paisagem..., e a essa paisagem conheço-a há muito, e há muito que com essa mulher que desconheço erro, outra realidade, através da irrealidade dela. Sinto em mim séculos de conhecer aquelas árvores e aquelas flores e aquelas vias em desvios e aquele ser meu que ali vagueia, antigo e ostensivo ao meu olhar que o saber que estou nesta alcova veste de penumbras de ver...
De vez em quando pela floresta onde de longe me vejo e sinto um vento lento varre um fumo, e esse fumo é a visão nítida e escura da alcova em que sou atual, destes vagos móveis e reposteiros e do seu torpor de noturna. Depois esse vento passa e torna a ser toda só ela a paisagem daquele outro mundo...
Outras vezes este quarto estreito é apenas uma cinza de bruma no horizonte dessa terra diversa... E há momentos em que o chão que ali pisamos é esta alcova visível...
Sonho e perco-me, duplo de ser eu e essa mulher... Um grande cansaço é um fogo negro que me consome... Uma grande ânsia passiva é a vida falsa que me estreita...
Ó felicidade baça!... O eterno estar no bifurcar dos caminhos!... Eu sonho e por detrás da minha atenção sonha comigo alguém. E talvez eu não seja senão um sonho desse Alguém que não existe...
Lá fora a antemanhã tão longínqua! A floresta tão aqui ante outros olhos meus!
E eu, que longe dessa paisagem quase a esqueço, é ao tê-la que tenho saudades dela, é ao percorrê-la que a choro e a ela aspiro.
As árvores! As flores! O esconder-se copado dos caminhos!...
Passeávamos às vezes, braço dado, sob os cedros e as olaias e nenhum de nós pensava em viver. A nossa carne era-nos um perfume vago e a nossa vida um eco de som de fonte. Dávamo-nos as mãos e os nossos olhares perguntavam-se o que seria o ser sensual e o querer realizar em carne a ilusão do amor...
No nosso jardim havia flores de todas as belezas... - rosas de contornos enrolados, lírios de um branco amarelecendo-se, papoilas que seriam ocultas se o seu rubro lhes não espreitasse presença, violetas pouco na margem tufada dos canteiros, miosótis mínimos, camélias estéreis de perfume... E, pasmados por cima de ervas altas, olhos, os girassóis isolados fitavam-nos grandemente.
Nós roçávamos a alma toda vista pelo fresco visível dos musgos e tínhamos, ao passar pelas palmeiras, a intuição esguia de outras terras... E subia-nos o choro à lembrança, porque nem aqui, ao sermos felizes, o éramos...
Carvalhos cheios de séculos nodosos faziam tropeçar os nossos pés nos tentáculos mortos das suas raízes... Plátanos estacavam... E ao longe, entre árvore e árvore de perto, pendiam no silêncio das latadas os cachos negrejantes das uvas...
O nosso sonho de viver ia adiante de nós, alado, e nós tínhamos para ele um sorriso igual e alheio, combinado nas almas, sem nos olharmos, sem sabermos um do outro mais do que a presença apoiada de um braço contra a atenção entregue do outro braço que o sentia.
A nossa vida não tinha dentro. Éramos fora e outros. Desconhecíamo-nos, como se houvéssemos aparecido às nossas almas depois de uma viagem através de sonhos...
Tínhamo-nos esquecido do tempo, e o espaço imenso empequenara-se-nos na atenção. Fora daquelas árvores próximas, daquelas latadas afastadas, daqueles montes últimos no horizonte haveria alguma coisa de real, de merecedor do olhar aberto que se dá às coisas que existem?...
Na clepsidra da nossa imperfeição gotas regulares de sonho marcavam horas irreais... Nada vale a pena, ó meu amor longínquo, senão o saber como é suave saber que nada vale à pena...
O movimento parado das árvores: o sossego inquieto das fontes; o hálito indefinível do ritmo íntimo das seivas; o entardecer lento das coisas, que parece vir-lhes de dentro a dar mãos de concordância espiritual ao entristecer longínquo, e próximo à alma, do alto silêncio do céu; o cair das folhas, compassado e inútil, pingos de alheamento, em que a paisagem se nos torna toda para os ouvidos e se entristece em nós como uma pátria recordada - tudo isto, como um cinto a desatar-se, cingia-nos, incertamente.
Ali vivemos um tempo que não sabia decorrer, um espaço para que não havia pensar em poder-se medi-lo. Um decorrer fora do Tempo, uma extensão que desconhecia os hábitos da realidade do espaço... Que horas, ó companheira inútil do meu tédio, que horas de desassossego feliz se fingiram nossas ali!... Horas de cinza de espírito, dias de saudade espacial, séculos interiores de paisagem externa... E nós não nos perguntávamos para que era aquilo, porque gozávamos o saber que aquilo não era para nada.
Nós sabíamos ali, por uma intuição que por certo não tínhamos, que este dolorido mundo onde seríamos dois, se existia, era para além da linha extrema onde as montanhas são hálitos de formas, e para além dessa não havia nada. E era por causa da contradição de saber isto que a nossa hora de ali era escura como uma caverna em terra de supersticiosos, e o nosso senti-la ela estranho como um perfil da cidade mourisca contra um céu de crepúsculo outonal...
Orlas de mares desconhecidos tocavam no horizonte de ouvirmos, praias que nunca poderíamos ver, e era-nos a felicidade escutar, até vê-lo em nós, esse mar onde sem dúvida singravam caravelas com outros fins em percorrê-lo que não os fins úteis e comandados da Terra.
Reparávamos de repente, como quem repara que vive, que o ar estava cheio de cantos de ave, e que, como perfumes antigos em cetins, o marulho esfregado das folhas estava mais entranhado em nós do que a consciência de o ouvirmos.
E assim o murmúrio das aves, o sussurro dos arvoredos e o fundo monótono e esquecido do mar eterno punham à nossa vida abandonada uma auréola de não a conhecermos. Dormimos ali acordados dias, contentes de não ser nada, de não ter desejos nem esperanças, de nos termos esquecido da cor dos amores e do sabor dos ódios. Julgávamo-nos imortais...
Ali vivemos horas cheias de um outro sentimo-las, horas de uma imperfeição vazia e tão perfeitas por isso, tão diagonais à certeza rectângula da vida. Horas imperiais depostas, horas vestidas de púrpura gasta, horas caídas nesse mundo de um outro mundo mais cheio do orgulho de ter mais desmanteladas angústias...
E doía-nos gozar aquilo, doía-nos... Porque, apesar do que tinha de exílio calmo, toda essa paisagem nos sabia a sermos deste mundo, toda ela era úmida da pompa de um vago tédio, triste e enorme e perverso como a decadência de um império ignoto...
Nas cortinas da nossa alcova a manhã é uma sombra de luz. Meus lábios, que eu sei que estão pálidos, sabem um ao outro a não quererem ter vida.
O ar do nosso quarto neutro é pesado como um reposteiro. A nossa atenção sonolenta ao mistério de tudo isto é mole como uma cauda de vestido arrastado num cerimonial no crepúsculo.
Nenhuma ânsia nossa tem razão de ser. Nossa atenção é um absurdo consentido pela nossa inércia alada.
Não sei que óleos de penumbra ungem a nossa idéia do nosso corpo. O cansaço que temos é a sombra de um cansaço. Vem-nos de muito longe, como a nossa idéia de haver a nossa vida...
Nenhum de nós tem nome ou existência plausível. Se pudéssemos ser ruidosos ao ponto de nos imaginarmos rindo riríamos sem dúvida de nos julgarmos vivos. O frescor aquecido do lençol acaricia-nos (a ti como a mim decerto) os pés que se sentem, um ao outro, nus.
Desenganemo-nos, meu amor, da vida e dos seus modos. Fujamos a sermos nós... Não tiremos do dedo o anel mágico que chama, mexendo-se-lhe, pelas fadas do silêncio e pelos elfos da sombra e pelos gnomos do esquecimento...
E ei-la que, ao irmos a sonhar falar nela, surge ante nós outra vez, a floresta muita, mas agora mais perturbada da nossa perturbação e mais triste da nossa tristeza. Foge de diante dela, como um nevoeiro que se esfolha, a nossa idéia do mundo real, e eu possuo-me outra vez no meu sonho errante, que essa floresta misteriosa enquadra...
As flores, as flores que ali vivi! Flores que a vista traduzia para seus nomes, conhecendo-as, e cujo perfume a alma colhia, não nelas mas na melodia dos seus nomes... Flores cujos nomes eram, repetidos em seqüência, orquestras de perfumes sonoros... Árvores cuja volúpia verde punha sombra e frescor no como eram chamadas... Frutos cujo nome era um cravar de dentes na alma da sua polpa... Sombras que eram relíquias de outroras felizes... Clareiras, clareiras claras, que eram sorrisos mais francos da paisagem que se bocejava em próxima... Ó horas multicolores!... Instantes-flores, minutos-árvores, ó tempo estagnado em espaço, tempo morto de espaço e coberto de flores, e do perfume de flores, e do perfume de nomes de flores!...
Loucura de sonho naquele silêncio alheio!...
A nossa vida era toda a vida... O nosso amor era o perfume do amor... Vivíamos horas impossíveis, cheias de sermos nós... E isto porque sabíamos, com toda a carne da nossa carne, que não éramos uma realidade...
Éramos impessoais, ocos de nós, outra coisa qualquer... Éramos aquela paisagem esfumada em consciência de si própria... E assim como ela era duas - de realidade que era, a ilusão - assim éramos nós obscuramente dois, nenhum de nós sabendo bem se o outro não ele próprio, se o incerto outro viveria...
Quando emergíamos de repente ante o estagnar dos lagos sentíamo-nos a querer soluçar...
Ali aquela paisagem tinha os olhos rasos de água, olhos parados, cheios do tédio inúmero de ser... Cheios, sim, do tédio de ser, de ter de ser qualquer coisa, realidade ou ilusão - e esse tédio tinha a sua pátria e a sua voz na mudez e no exílio dos lagos... E nós, caminhando sempre e sem o saber ou querer, parecia ainda assim que nos demorávamos à beira daqueles lagos, tanto de nós com eles ficava e morava, simbolizado e absorto...
E que fresco e feliz horror o de não haver ali ninguém! Nem nós, que por ali íamos, ali estávamos... Porque nós não éramos ninguém. Nem mesmo éramos coisa alguma... Não tínhamos vida que a Morte precisasse para matar. Éramos tão tênues e rasteirinhos que o vento do decorrer nos deixara inúteis e a hora passava por nós acariciando-nos como uma brisa pelo cimo duma palmeira.
Não tínhamos época nem propósito. Toda a finalidade das coisas e dos seres ficara-nos à porta daquele paraíso de ausência. Imobilizara-se, para nos sentir senti-la, a alma rugosa dos troncos, a alma estendida das folhas, a alma núbil das flores, a alma vergada dos frutos...
E assim nós morremos a nossa vida, tão atentos separadamente a morrê-la que não reparamos que éramos um só, que cada um de nós era uma ilusão do outro, e cada um, dentro de si, o mero eco do seu próprio ser...
Zumbe uma mosca, incerta e mínima...
Raiam na minha atenção vagos ruídos, nítidos e dispersos, que enchem de ser já dia a minha consciência do nosso quarto... Nosso quarto? Nosso de que dois, se eu estou sozinho? Não sei. Tudo se funde e só fica, fugindo, uma realidade-bruma em que a minha incerteza sossobra e o meu compreender-me, embalado de ópios, adormece...
A manhã rompeu, como uma queda, do cimo pálido da Hora...
Acabaram de arder, meu amor, na lareira da nossa vida, as achas dos nossos sonhos...
Desenganemo-nos da esperança, porque trai, do amor, porque cansa, da vida, porque farta e não sacia, e até da morte, porque traz mais do que se quer e menos do que se espera.
Desenganemo-nos, ó Velada, do nosso próprio tédio, porque se envelhece de si próprio e não ousa ser toda a angústia que é.
Não choremos, não odiemos, não desejemos...
Cubramos, ó Silenciosa, com um lençol de linho fino o perfil hirto e morto da nossa Imperfeição...
Fernando Pessoa

... Que ela não se esquecesse, naquela sua fina luta travada, que o mais difícil de se entender era a alegria ...


E não me esquecer,
de me preparar para errar.
Não esquecer que o
erro muitas vezes
se havia tornado o meu caminho.
Todas as
vezes em que não dava certo
o que eu pensava ou sentia
- é que se fazia enfim
uma brecha,
e, se antes eu tivesse
tido coragem,
já teria entrado por ela.
Mas
eu sempre tivera medo
de delírio e erro.
Meu erro, no entanto,
devia ser o caminho
de uma verdade:
pois só quando erro
é que saio do que conheço
e do que entendo.
Se a "verdade" fosse
aquilo que posso entender
- terminaria sendo apenas
uma verdade pequena,
do meu tamanho.
A verdade tem que estar
exatamente
no que não poderei
jamais compreender.

Oswaldo Montenegro - Metade


quarta-feira, 17 de agosto de 2011

A palavra é o desejo do pensamento. Cintila. Cada livro é sangue, é pus, é excremento. É coração retalhado, é nervos fragmentados, é choque elétrico, é sangue coagulado escorrendo como lava fervendo pela montanha abaixo.
Clarice Lispector

Janela da Alma - João Jardim e Walter Carvalho

“Posso olhar para você e provavelmente perceber que estou olhando para você. Antigamente, quando eu olhava para uma pessoa, ela perguntava: Com quem está falando? Era terrível. Você não tem aquele contato com as pessoas.
Lembro-me de minha mãe olhando pra mim com aquele olhar triste e deprimido. Olhando pra mim sem se comunicar comigo. Olhando através de mim, como que dizendo: Coitada da minha filha, que horror! E isso me afetou... como se eu fosse um fracasso. Mas eu estava decidida a não ser um fracasso, a lutar, a fazer tudo que pudesse, a escolher uma profissão na qual, possuindo algo de único, pudesse transformar essas cinzas em uma jóia.
Eu queria ser princesa, como minhas colegas. Desempenhar o papel principal no teatro da escola. Mas nunca fui escolhida para o papel de princesa. Eu era sempre o rei e passava a maior parte do tempo em baixo de um pano cinza, transformada em pedra. Devido ao encantamento, eu me levantava e podia voltar a ser rei por mais ou menos dois minutos e a peça acabava. Esse era meu papel. Então, eu deixei de querer o papel principal. Comecei a imaginar que, como cineasta, tenho a permissão de desempenhar todos os papéis: eu manipulo os bonecos, desenho as personagens...
Finalmente consegui o papel da princesa.
O paradoxo de tudo isso é que logo após a última operação para corrigir a visão, que foi bem sucedida, ninguém notou a diferença. Então, de quê adiantou todo esse trauma? Foi uma lesão interna. A deformidade que transformava meu rosto em uma espécie de ameixa enrugada, o fato de ser feia e vesga; algo em mim que ninguém nem reparou. 
Trágico, não?”
Marjut Rimminen


“Eu estava num restaurante sozinho e de repente pensei:
E se nós vivêssemos todos cegos?
E depois, no segundo seguinte, estava a responder a minha própria pergunta: Mas nós estamos realmente todos cegos.
Cegos da razão, cegos de tudo aquilo que faz de nós, não um ser razoavelmente funcional no sentido da relação humana, mas ao contrário: um ser agressivo, violento, egoísta. E o espetáculo que o mundo oferece é precisamente esse: um mundo da desigualdade e do sofrimento, sem justificação. Com explicação; podemos explicar o que se passa, mas não tem justificação.”
Saramago


Ai, que serias tu, pássaro, sem as asas,
Alma, sem os sentidos?
Vicente de Carvalho

Tênis e Frescobol


“Depois de muito meditar sobre o assunto concluí que os casamentos são de dois tipos: há os casamentos do tipo tênis e há os casamentos do tipo frescobol. Os casamentos do tipo tênis são uma fonte de raiva e ressentimentos e terminam sempre mal. Os casamentos do tipo frescobol são uma fonte de alegria e têm a chance de ter vida longa.

Explico-me. Para começar, uma afirmação de Nietzsche, com a qual concordo plenamente. Dizia ele: “Ao pensar sobre a possibilidade do casamento cada um deveria fazer a seguinte pergunta: “Você crê que seria capaz de conversar com prazer com esta pessoa até a sua velhice?” Tudo o mais no casamento é transitório, mas as relações que desafiam o tempo são aquelas construídas sobre a arte de conversar.”

Xerazade sabia disso. Sabia que os casamentos baseados nos prazeres da cama são sempre decapitados pela manhã, terminam em separação, pois os prazeres do sexo se esgotam rapidamente, terminam na morte, como no filme O Império dos Sentidos. Por isso, quando o sexo já estava morto na cama, e o amor não mais se podia dizer através dele, ela o ressuscitava pela magia da palavra: começava uma longa conversa, conversa sem fim, que deveria durar mil e uma noites. O sultão se calava e escutava as suas palavras como se fossem música. A música dos sons ou da palavra – é a sexualidade sob a forma de eternidade: é o amor que ressuscita sempre, depois de morrer. Há os carinhos que se fazem com o corpo e há os carinhos que se fazem com as palavras. E contrariamente ao que pensam os amantes inexperientes, fazer carinho com as palavras não é ficar repetindo o tempo todo: “Eu te amo, eu te amo...” Barthes advertia: “Passada a primeira confissão, ‘eu te amo’ não quer dizer mais nada.” É na conversa que o nosso verdadeiro corpo se mostra, não em sua nudez anatômica, mas em sua nudez poética. Recordo a sabedoria de Adélia Prado: “Erótica é a alma”.

O tênis é um jogo feroz. O seu objetivo é derrotar o adversário. E a sua derrota se revela no seu erro: o outro foi incapaz de devolver a bola. Joga-se tênis para fazer o outro errar. O bom jogador é aquele que tem a exata noção do ponto fraco do seu adversário, e é justamente para aí que ele vai dirigir a sua cortada – palavra muito sugestiva, que indica o seu objetivo sádico, que é o de cortar, interromper, derrotar. O prazer do tênis se encontra, portanto, justamente no momento em que o jogo não pode mais continuar porque o adversário foi colocado fora do jogo. Termina sempre com a alegria de um e a tristeza de outro.

O frescobol se parece muito com o tênis: dois jogadores, duas raquetes e uma bola. Só que, para o jogo ser bom, é preciso que nenhum dos dois perca. Se a bola veio meio torta, a gente sabe que não foi de propósito e faz o maior esforço do mundo para devolvê-la gostosa, no lugar certo, para que o outro possa pegá-la. Não existe adversário porque não há ninguém a ser derrotado. Aqui ou os dois ganham ou ninguém ganha. E ninguém fica feliz quando o outro erra – pois o que se deseja é que ninguém erre. O erro de um, no frescobol, é como ejaculação precoce: um acidente lamentável que não deveria ter acontecido, pois o gostoso mesmo é aquele ir e vir, ir e vir, ir e vir... E o que errou pede desculpas, e o que provocou o erro se sente culpado. Mas não tem importância: começa-se de novo este delicioso jogo em que ninguém marca pontos...
A bola: são as nossas fantasias, irrealidades, sonhos sob a forma de palavras. Conversar é ficar batendo sonho pra lá, sonho pra cá...

Mas há casais que jogam com os sonhos como se jogassem tênis. Ficam à espera do momento certo para a cortada. Camus anotava no seu diário, pequenos fragmentos para os livros que pretendia escrever. Um deles, que se encontra nos Primeiros Cadernos, é sobre este jogo de tênis:

“Cena: o marido, a mulher, a galeria. O primeiro tem valor e gosta de brilhar. A segunda guarda silêncio, mas, com pequenas frases secas, destrói todos os propósitos do caro esposo. Desta forma marca constantemente a sua superioridade. O outro domina-se, mas sofre uma humilhação e é assim que nasce o ódio. Exemplo: com um sorriso: ‘Não se faça mais estúpido do que é, meu amigo.’ A galeria torce e sorri pouco à vontade. Ele cora, aproxima-se dela, beija-lhe a mão suspirando: ‘Tens razão, minha querida.’ A situação está salva e o ódio vai aumentando.”
Tênis é assim: recebe-se o sonho do outro para destruí-lo, arrebentá-lo, como bolha de sabão... O que se busca é ter razão e o que se ganha é o distanciamento. Aqui, quem ganha sempre perde.

Já no frescobol é diferente: o sonho do outro é um brinquedo que deve ser preservado, pois sabe que, se é sonho, é coisa delicada, do coração. O bom ouvinte é aquele que, ao falar, abre espaços para que as bolhas de sabão do outro voem livres. Bola vai, bola vem – cresce o amor... Ninguém ganha para que os dois ganhem. E se deseja então que o outro viva sempre, eternamente, para que o jogo nunca tenha fim ...”

Rubem Alves




"Os acontecimentos de água põem-se a repetir na memória."
João Cabral de Melo Neto





Somos todos prisioneiros,
mas as celas de uns tem janelas
e as de outros não.
Khalil Gibran