quinta-feira, 22 de setembro de 2011

A Arte de Ser Feliz


Houve um tempo em que a minha janela se abria para um chalé. Na ponta do chalé brilhava um grande ovo de louça azul. Nesse ovo costumava pousar um pombo branco. Ora, nos dias límpidos, quando o céu ficava da mesma cor do ovo de louça, o pombo parecia pousado no ar.
Eu era criança, achava essa ilusão maravilhosa, e sentia-me completamente feliz. Houve um tempo em que a minha janela dava para um canal. No canal oscilava um barco. Um barco carregado de flores. Para onde iam as flores? Quem as comprava? Em que jarra, em que sala, diante de quem brilhariam, na sua breve existência? E que mãos as tinham criado? E que pessoas íam sorrir de alegria ao recebê-las? Eu não era mais criança, porém minha alma ficava completamente feliz.
Houve um tempo em que minha janela se abria para um terreiro, onde uma vasta mangueira alargava sua copa redonda. À sombra da árvore, numa esteira, passava quase todo o dia sentada uma mulher, cercada de crianças. E contava histórias. Eu não a podia ouvir, da altura da janela; e mesmo que a ouvisse, não a entenderia, porque isso foi muito longe, num idioma difícil. Mas as crianças tinham tal expressão no rosto, e às vezes faziam com as mãos arabescos tão compreensíveis, que eu participava do auditório, imaginava os assuntos e suas peripécias e me sentia completamente feliz.
Houve um tempo em que minha janela se abria sobre uma cidade que parecia ser feita de giz. Perto da janela havia um jardim quase seco. Era numa época de estiagem, da terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre homem com um balde, e, em silêncio, ía atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. Outras vezes encontro nuvens espessas. Avisto crianças que vão para a escola. Pardais que pulam o muro. Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais. Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho no ar. Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega. Às vezes, um galo canta. Às vezes, um avião passa. Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino. Eu me sinto completamente feliz. Mas quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.
Cecília Meireles





sábado, 3 de setembro de 2011


3- Alejandro Sanz- Se le apagó la luz- TVE



Estou seguro de que uma infância em que a imaginação tenha sido mais atendida - seja por um avô contador de histórias, seja por um ambiente povoado de livros - ajuda muito o ser humano no seu trajeto pela vida futura. Se o lar é bem constituído e seus componentes se comunicam intensamente; se a família se reúne para conversar, para comentar fatos e coisas, para falar de livros, de filmes e de histórias, para comentar a notícia do dia, a presença da literatura é fundamental para criar pessoas mais felizes. Num núcleo familiar em que isso não acontece, fica difícil para a literatura ter importância.

 Ziraldo

sexta-feira, 2 de setembro de 2011



A estrada do amor, a gente já está mesmo nela,
desde que não pergunte por direção nem destino.
E a casa do amor - em cuja porta não se chama e não se espera –
 fica um pouco mais adiante.
Guimarães Rosa

"A hipótese vôa, a ação caminha.
Po vezes, as asas tomam um rumo indevido; o pé sempre pisa no chão firme.
Porém, o vôo pode ser retificado, enquanto o passo nunca poderá voar."
José Engenieros - O Homem Medíocre





Não, meu bem, não adianta bancar o distante: 
vem o amor nos dilacerar de novo...
Caio Fernando Abreu
AS PESSOAS DIZEM:
“VOCÊ É TÃO ARTICULADO!”
BEM, A GENTE VESTE A MÁSCARA
QUANDO SE SENTE NOJENTO,
E EM GERAL, É A DE PALHAÇO.
E SE A GENTE DESPISTA O QUE
ESTÃO PERGUNTANDO COM
ALGUMAS PIADAS, ELES ESQUECEM
O QUE PERGUNTARAM.
NÃO CONSIGO COMPREENDER AS
 PALAVRAS NA HORA E FICO MUITO
FRUSTRADO, PORQUE SEI QUE HÁ
VIDA ALI, E DE MELHOR QUALIDADE
QUE A MINHA.
A GENTE SABE QUE PODE
RESPONDER À PERGUNTA NA SALA
 DE AULA, MAS NÃO OUSA
LEVANTAR A MÃO, PORQUE PASSOU.
A RESPOSTA ESTÁ VIVA DENTRO DE
 MIM, MAS NÃO POSSO LEVANTAR A
 MÃO PARA PÔ-LA EM PALAVRAS.
A GENTE NÃO SE COMUNICA COM
PESSOAS ARTICULADAS.
FAÇO AS PESSOAS RIREM PARA QUE NÃO
SAIBAM O QUANTO ISSO ME DÓI.
Síndromes Silenciosas