quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Janela da Alma - João Jardim e Walter Carvalho

“Posso olhar para você e provavelmente perceber que estou olhando para você. Antigamente, quando eu olhava para uma pessoa, ela perguntava: Com quem está falando? Era terrível. Você não tem aquele contato com as pessoas.
Lembro-me de minha mãe olhando pra mim com aquele olhar triste e deprimido. Olhando pra mim sem se comunicar comigo. Olhando através de mim, como que dizendo: Coitada da minha filha, que horror! E isso me afetou... como se eu fosse um fracasso. Mas eu estava decidida a não ser um fracasso, a lutar, a fazer tudo que pudesse, a escolher uma profissão na qual, possuindo algo de único, pudesse transformar essas cinzas em uma jóia.
Eu queria ser princesa, como minhas colegas. Desempenhar o papel principal no teatro da escola. Mas nunca fui escolhida para o papel de princesa. Eu era sempre o rei e passava a maior parte do tempo em baixo de um pano cinza, transformada em pedra. Devido ao encantamento, eu me levantava e podia voltar a ser rei por mais ou menos dois minutos e a peça acabava. Esse era meu papel. Então, eu deixei de querer o papel principal. Comecei a imaginar que, como cineasta, tenho a permissão de desempenhar todos os papéis: eu manipulo os bonecos, desenho as personagens...
Finalmente consegui o papel da princesa.
O paradoxo de tudo isso é que logo após a última operação para corrigir a visão, que foi bem sucedida, ninguém notou a diferença. Então, de quê adiantou todo esse trauma? Foi uma lesão interna. A deformidade que transformava meu rosto em uma espécie de ameixa enrugada, o fato de ser feia e vesga; algo em mim que ninguém nem reparou. 
Trágico, não?”
Marjut Rimminen


“Eu estava num restaurante sozinho e de repente pensei:
E se nós vivêssemos todos cegos?
E depois, no segundo seguinte, estava a responder a minha própria pergunta: Mas nós estamos realmente todos cegos.
Cegos da razão, cegos de tudo aquilo que faz de nós, não um ser razoavelmente funcional no sentido da relação humana, mas ao contrário: um ser agressivo, violento, egoísta. E o espetáculo que o mundo oferece é precisamente esse: um mundo da desigualdade e do sofrimento, sem justificação. Com explicação; podemos explicar o que se passa, mas não tem justificação.”
Saramago

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