quinta-feira, 18 de agosto de 2011

A solidão

A solidão, antes de qualquer coisa, é um ideal. Isto já aparecia em Robson Crusoé, um dos primeiros romances da modernidade. Todo mundo idealizava ser aquele cara sozinho, misterioso, que vivia em uma ilha deserta. Dessa forma, a solidão foi-se constituindo em nosso repertório como algo a ser buscado. Alguém sozinho é altamente desejado e invejado.
É bom ser misterioso – sobretudo se a gente não tem mistério nenhum. O mistério atrai porque é um lugar inacessível, subjetivo. Acontece que a verdade da subjetividade moderna é justamente contrária a esse ideal de solidão, uma vez que nenhum sujeito pode ser definido por ele mesmo. Somos todos definidos pelos outros. A aurora da subjetividade moderna em questão aconteceu a partir do século XV mais ou menos, quando os tratados de boas maneiras deixaram de ser simplesmente listas de regras para bem viver na corte para se tornarem listas do que podemos fazer de melhor para ganhar a consideração do vizinho. Pronto. Passamos a ser fundamentalmente constituídos pelo olhar dos outros. Queremos ser reconhecidos, aprovados, aceitos, desejados e invejados pelos outros. Portanto, certamente não somos sujeitos solitários. O raciocínio é mais ou menos assim: se eu for solitário, me parecerei com Clint Eastwood e, portanto, serei invejado por outros homens e amado por todas as mulheres, que nunca me terão. Por isso, elas também nunca poderão descobrir que, na verdade, não sou essa grande coisa que elas imaginam. No fundo é um paradoxo, me interessa ser solitário porque isso me torna um sucesso social. O paradoxo do ideal de solidão é aquele em que eu estou disposto a me privar dos prazeres da companhia sob a condição de ter a certeza de estar no centro das atenções de todos.
A solidão pode deixar de ser um ideal e passar a ser um problema. No momento em que o sujeito aceita a idéia de que ele é definido pelo contexto social, pelas trocas sociais, sobretudo pelo olhar dos outros, acaba tendo a tendência de perceber quanto esse sistema é falso. Eu posso ter o maior sucesso, sou amado e reconhecido, desejado, invejado, mas no fundo ninguém sabe o filho da mãe que eu sou, que eu sou uma farsa, um impostor.
Que não mereço tudo isso. Então, posso presumir inclusive, que o mesmo acontece com os outros. Ou seja, quando eu vejo pessoas que me apreciam, retribuo. Mas ninguém consegue tocar meu âmago, e vice-versa. São os chamados relacionamentos de superfície. No fim, o sujeito moderno acaba sendo nostálgico de uma essência que de fato ele não tem. Uma metáfora para explicar essa subjetividade contemporânea é a cebola. Se você a descasca, há uma série de camadas, mas não há caroço. Somos uma cebola. O que não deixa de produzir uma grande nostalgia de um tipo de experiência subjetiva em que, se tivéssemos um caroço, poderíamos ter a ambição de saber quem somos e de saber quem os outros são. A nostalgia da essência é uma coisa que implica a sensação de superficialidade dessa extrema massa de contatos sociais que nos constituem e, portanto, uma sensação constante de solidão mesmo quando não estamos sozinhos.
Ninguém consegue tocar meu íntimo, nem minha mulher, nem meus filhos, nem ninguém. Isso é uma dimensão da experiência subjetiva moderna que acho muito difícil eliminar justamente pelas falsas trocas sociais. A idéia de uma verdade subjetiva que estaria sendo, de alguma forma, ocultada pelas trocas sociais está diretamente ligada à condição de nossa sensação de unicidade, uma doença gravíssima. É a idéia de que somos únicos no Universo. Ela nos predispõe a pensarmos que devemos ter uma espécie de âmago, de verdade subjetiva, que não se confunde com esse comércio social banal em que afinal todo mundo diz as mesmas coisas e faz de conta que gosta das mesmas coisas.
Quem se queixa que é sozinho, em geral, também reclama da falsidade das relações, afinal, ninguém o reconhece pelo que verdadeiramente ele é.
Suponho que aquele que não se sente sozinho é quem tenha pelo menos um amigo e um amor. É o que quebra a solidão. Só que a amizade, até mais que o amor, é um negócio que dá trabalho. E, em geral, as pessoas que se sentem sozinhas são avaras de si mesmas. Não se consegue uma amizade sem generosidade. Ela custa caro.
Por exemplo: você diz que está sozinho e me liga para jantar, quando eu começo a falar de mim, você diz que precisa voltar pra casa porque é seu costume acordar cedo para correr.
Tudo bem, eu penso. Então vá correr sozinho. Em geral quem se queixa de solidão é avaro de si, do seu tempo, do seu sono.
Não estou falando de paixões cinematográficas, até porque concordo, isso pode ser um golpe de sorte ou não acontecer nunca. Mas a gente tem de ter a capacidade de transformar os encontros em amores, com disposição para isso. Amar e estar na posição de unicidade não dá muito certo.
Isso tem muito a ver com o triunfo de nossa moral dominante, uma moral higienista, baseada na máxima: “preservar para durar mais”. Não posso fazer nada que comprometa a duração da minha vida. Portanto, organizo minha vida racionalmente a partir desse ideal. Por exemplo: Tenho que levantar às 7 da manhã, mesmo se eu estiver na cama pela primeira vez com alguém por quem eu possa me apaixonar. Então, não tem jeito, vai ficar sozinho mesmo.
É quando o outro ocupa meu tempo de uma forma irracional, me cansa, me contamina, suja meus lençóis, vai saber se tem alguma doença que me transmita com a saliva. No fundo, o ideal higienista é de solidão. Claro que não estou falando de deixar de usar a camisinha; quando você se coloca nessa perspectiva higienista já não é a aids que o contamina – é o outro. O parceiro, a companhia, o amigo, o amor em potencial se transformam em um perigoso vírus que contamina suas coisas, sua casa, sua vida.

Contardo Calligaris

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