terça-feira, 16 de agosto de 2011

Porque coisas ruins acontecem às pessoas boas

... “Nosso filho Aaron era uma criança brilhante e feliz. Minha mulher e eu havíamos começado a ficar preocupados com sua saúde quando ele parou de ganhar peso, aproximadamente aos oito meses de idade. Médicos famosos o examinaram, deram nomes complicados à sua doença e garantiram que ele, embora não crescesse muito, seria normal. Logo depois mudamos de NY para o subúrbio de Boston, de cuja congregação me tornei rabino. Descobrimos que o pediatra local fazia pesquisas sobre problemas de crescimento infantil, e o apresentamos Aaron. O médico diagnosticou sua doença como progéria, “envelhecimento precoce” e nos disse que Aaron não teria mais que 90 cm de altura, não teria cabelos nem pêlos no corpo, que se pareceria com um velho mesmo sendo ainda criança e que morreria no início da adolescência.

Como alguém reage a notícias como esta? Eu era um rabino jovem e inexperiente, não afeito ainda ao processo da dor, como ficaria depois, com o decorrer do tempo. O que eu senti aquele dia foi uma sensação profunda e dolorida de deslealdade. Nada fazia sentido. Eu tentara fazer o que me parecia correto aos olhos de Deus. Mais que isto; eu levava uma vida mais comprometida com a religião que a maioria das pessoas que conhecia, pessoas que tinham famílias grandes e saudáveis. Eu acreditava estar trilhando os caminhos de Deus. Como isto podia acontecer a minha família? Se Deus existia, se havia o mínimo de justiça, como Ele podia fazer isto comigo?

E mesmo que eu conseguisse me convencer de que merecia aquela punição por algum pecado de negligência ou orgulho de que não tinha consciência, por que Aaron deveria sofrer física e psicologicamente todos os dias de sua vida? Por que deveria ser observado com curiosidade, apontado, onde quer que chegasse? Por que a condenação de chegar até a adolescência, de ver os outros meninos começarem a namorar e de perceber que ele jamais conheceria o casamento ou a paternidade? Simplesmente não fazia sentido.

Como a maioria das pessoas, minha esposa e eu havíamos crescido fazendo de Deus a imagem de um pai onipotente que nos trata como nossos próprios pais o fazem ou ainda melhor. Se fôssemos obedientes, Ele nos recompensaria; se saíssemos da linha, Ele nos disciplinaria. Ele nos protegeria do mal e, ao final, nos premiaria pelo que tivéssemos merecido durante a vida.

Como a maioria das pessoas, eu tinha consciência das tragédias que obscureciam a paisagem da vida – jovens que morriam em acidentes, pessoas alegres e amáveis colhidas por paralisias, vizinhos e parentes de cujos filhos deficientes mentais os outros comentavam em tons reticentes. Mas essa consciência nunca me levou a questionar a justiça de Deus. Tinha pra mim que Deus sabia mais sobre o mundo do que eu.

Então chegou aquele dia no Hospital em que o médico nos falou de Aaron e nos explicou o que vinha a ser progéria. Aquilo era a negação de tudo o que eu vinha ensinando. Eu só podia ficar repetindo comigo mesmo: “Isto não pode estar acontecendo. Não é assim que o mundo tem de funcionar.” Admitia-se que tragédias como aquela aconteceriam a pessoas egoístas e desonestas, as quais eu, como rabino, tentaria confortar, assegurando-lhes o amor incondicional de Deus. Mas, se minhas crenças sobre o mundo eram verdadeiras, como poderia acontecer a mim e ao meu filho?

Fundamentalmente, sou um homem religioso rudemente golpeado pela vida, e com o sentimento interno de que, se existe justiça neste mundo, algo melhor deveria ser destinado a mim.

Existe apenas uma questão que realmente importa: por que coisas ruins acontecem a pessoas boas? Pessoas boas que ficam perturbadas pela injusta distribuição do sofrimento no mundo. As desgraças que atingem as pessoas boas não são um problema apenas para a própria vítima e suas famílias. Passam a ser problema para todos os que desejam acreditar num mundo justo, razoável e suportável.

Sou o rabino numa congregação de 600 famílias. Eu as visito nos hospitais, oficio seus funerais, tento auxiliá-las na angústia avassaladora de seus divórcios, seus negócios fracassados, sua infidelidade com os próprios filhos. E tenho muita dificuldade em dizer-lhes que a vida é bela, que Deus dá o que cada um merece e precisa. Eu vi pessoas erradas adoecerem, pessoas erradas serem brutalmente golpeadas pelo destino, jovens errados morrerem.

Gratifica-nos, de certo modo, acreditar que coisas ruins acontecem às pessoas (especialmente outras pessoas) porque Deus é um juiz justo que lhes dá exatamente o que merecem. Acreditando nisso, o mundo é compreensível e está tudo em ordem. Mas não posso dizer “amém” à afirmação de que “o justo floresce como a palmeira”, de que o justo, com o tempo, se levanta e ultrapassa o ímpio na conquista dos bens da vida. Como se explicaria o fato de Deus, que presumivelmente está por trás daquele arranjo, nem sempre conceder ao homem justo tempo para se levantar? Algumas pessoas boas morrem irrealizadas; outras acham o prolongamento da vida mais uma punição que um privilégio. O mundo, infelizmente, não é um lugar tão puro como gostaríamos de acreditar. É duro viver tendo que suportar a idéia de que os fatos atingem as pessoas sem qualquer razão, de que Deus perdeu o contato com o mundo e que a cadeira do piloto está vazia, de que nem todas as coisas desagradáveis que nos acontecem são para o nosso bem.

“Deus dá o frio conforme o cobertor?”; “Ele nunca exige mais do que podemos suportar? Minha experiência, infelizmente, não comprova isso. Vi pessoas esmagadas sob o peso de tragédias insuportáveis. Vi casamentos desfeitos depois da morte de uma criança porque os pais se acusavam reciprocamente de contribuir com o gene portador da anomalia ou, simplesmente, porque as lembranças que ambos partilhavam eram penosas demais. Vi nobreza e sensibilidade no sofrimento de algumas pessoas, mas vi outras tantas se tornarem cínicas e amarguradas. Vi pessoas com inveja dos demais, por não serem mais capazes de ter uma vida normal. Vi cânceres e desastres de automóveis roubarem a vida de um pai de família, liquidando praticamente com as vidas de cinco outros, que jamais puderam voltar a ser pessoas normais e satisfeitas após tal perda.

Os inocentes sofrem desgraças nesta vida. Acontecem-lhe coisas muito piores do que merecem e, a partir do que vivi, pude compreender que, quando isso ocorre, não significa que Deus nos esteja punindo por algo errado que fizemos. As desgraças não vêm, absolutamente, de Deus. Da mesma forma que não foi fácil, quando éramos crianças, constatar que nossos pais não eram onipotentes, que um brinquedo quebrado tinha de ser jogado fora porque eles não podiam consertá-lo, embora quisessem fazê-lo. Porém, se pudermos nos persuadir de que há situações que fogem ao controle de Deus, muitas coisas boas se tornarão possíveis.

O azar não precisa de nada para acontecer, ele simplesmente acontece. Por que tudo tem de ser razoável? Por que a exigência de uma razão específica para tudo? Uma bala perdida não tem consciência, um tiro não discrimina entre a tragédia que representarão a morte de uns e o sequer notado desaparecimento de outros. Na maior parte do tempo, os eventos do Universo seguem leis naturais firmes. Mas, a cada momento, surgem coisas não propriamente contrárias àquelas leis, senão fora delas. As coisas tanto acontecem de uma forma como poderiam ocorrer de forma diferente. As leis da natureza não abrem exceções para os bons. Não há razão especial para que uns e não outros sucumbam à desgraça. Esses eventos não refletem escolhas de Deus. Eles ocorrem ao acaso e o caos é mau. Não que seja errado ou malévolo; não obstante, ele é mau por provocar tragédias ao acaso e impedir as pessoas a acreditar em Deus. Coisas que acontecem sem razão continuarão conosco e, neste caso, teremos que aprender a conviver com isto, sustentados e confortados pelo conhecimento de que o terremoto e o acidente, assim como o assassinato e o roubo, não são da vontade de Deus, mas representam aquele aspecto da realidade que a despeito dela subsiste, e que a angustia entristece a Deus da mesma forma que nos angustia e nos entristece. Acaso viveríamos num mundo melhor se os favoritos de Deus ficassem imunes às leis da natureza, enquanto o resto teria que se arranjar por conta própria?

 A dor é o preço que pagamos por estar vivos. As células mortas não sentem dor, não podem sentir qualquer coisa. Quando entendemos isto, nossa questão muda de “por que temos de sentir dor?” para “o quê fazer com a nossa dor para que ela faça sentido?” Podemos até não entender por que sofremos ou não somos capazes de controlar as forças que causam nosso sofrimento, mas muito podemos dizer sobre o quê o sofrimento faz por nós e que tipo de pessoa nos tornamos por causa dele. A dor traz inveja e amargura a certas pessoas e faz outras sensíveis e compassivas.

Você é capaz de amar as pessoas que estão ao seu redor, mesmo quando elas o ferem e o derrubam, por não serem perfeitas e porque a penalidade por não ser capaz de amar pessoas imperfeitas é condenar-se à solidão? Você é capaz de amar e perdoar seus pais depois de ter percebido que eles não eram tão sábios, tão fortes e tão perfeitos, como você precisava que eles fossem?

Aaron morreu dois dias depois de completar 14 anos. Este livro é dele, uma vez que toda a tentativa de encontrar sentido no sofrimento e no mal do mundo será julgada um êxito ou um fracasso na medida em que oferecer uma explicação aceitável do porquê ele e nós passamos pelo que passamos. E este livro também é dele, porque sua vida o tornou possível e sua morte, o tornou necessário.

Ao escrever, pude ultrapassar a auto piedade, chegando ao ponto de enfrentar a morte do meu filho. Se eu simplesmente contasse às pessoas o quanto sofri, não faria bem a ninguém. Este livro teria de ser uma afirmação à vida. Ele teria de dizer que ninguém nunca nos prometeu uma vida livre da dor e do desapontamento. O máximo que nos prometeram foi que não estaríamos sós em nossa dor e que poderíamos haurir de uma fonte exterior, a força e a coragem de que necessitássemos para sobreviver às tragédias e às iniqüidades da vida.

Sou uma pessoa mais sensível, um pastor mais eficiente, um conselheiro mais simpático por causa da vida e da morte de Aaron de que teria sido sem isso. E eu renunciaria a todos esses ganhos em um segundo se pudesse ter meu filho de volta. Se pudesse escolher, eu me anteciparia a todo crescimento e aprofundamento espiritual que me sobrevieram em função de nossas experiências e seria o que eu era há 15 anos, um rabino médio, um conselheiro indiferente, ajudando a uns e incapaz de ajudar a outros, e pai de um garoto brilhante e feliz.
Porém, não posso escolher.”

 Harold S. Kushner

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